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| Adson Vicente

A glória dos que venceram e intercedem por nós

Publicado em — Categoria: Solenidade

A glória dos que venceram e intercedem por nós

No dia 1º de novembro, a Santa Igreja celebra com grande alegria a Solenidade de Todos os Santos — uma festa que exalta a vitória de todos os filhos de Deus que, tendo perseverado na fé, agora contemplam a face do Senhor na glória eterna.

É uma data que nos recorda que o Céu está cheio de amigos de Deus: mártires, confessores, virgens, doutores, justos e humildes — muitos dos quais são desconhecidos aos olhos do mundo, mas reconhecidos por Deus.
A Igreja, em sua sabedoria, instituiu esta festa para honrar não apenas os santos canonizados, mas também todos aqueles que atingiram a perfeição da caridade e participam da comunhão celeste.

ORIGEM E HISTÓRIA DA FESTA

A devoção aos santos é antiga, nascida do amor e da gratidão que os primeiros cristãos tinham por aqueles que derramaram o sangue pela fé. Desde os primórdios, a Igreja celebrava a memória dos mártires nos aniversários de suas mortes, considerados o “dies natalis” — o dia do nascimento para o Céu.

Com o passar dos séculos, o número de mártires cresceu tanto que já não era possível dedicar um dia para cada um. Assim, surgiu a ideia de um dia comum para todos os santos.

O Papa Bonifácio IV, no ano 609 ou 610, transformou o antigo Panteão romano — templo dedicado a todos os deuses pagãos — em uma igreja cristã consagrada à Virgem Maria e a todos os mártires. Esse gesto simbólico marcou o triunfo da fé sobre o paganismo. A dedicação ocorreu em 13 de maio, data em que inicialmente se celebrava a festa.

Mais tarde, o Papa Gregório III (séc. VIII) transferiu a celebração para o dia 1º de novembro, ao consagrar uma capela na Basílica de São Pedro em honra de Todos os Santos. O Papa Gregório IV (séc. IX) estendeu a festa a toda a Igreja, tornando-a universal.

FUNDAMENTO TEOLÓGICO E CATEQUÉTICO

A festa de Todos os Santos expressa a doutrina da Comunhão dos Santos, professada no Credo:

“Creio na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna.”

Essa comunhão une três estados da Igreja:

  1. A Igreja Triunfante, formada pelos santos no Céu;

  2. A Igreja Padecente, composta pelas almas em purificação no Purgatório;

  3. A Igreja Militante, nós, os fiéis ainda em peregrinação sobre a terra.

A Solenidade de Todos os Santos nos faz contemplar a Igreja Triunfante, modelo e destino da nossa caminhada. Eles são os que combateram o bom combate, guardaram a fé e agora participam da vitória de Cristo (cf. 2Tm 4,7-8).

O Catecismo da Igreja Católica ensina:

“Ao celebrar a memória dos santos, proclama-se o mistério pascal realizado neles, que sofreram com Cristo e com Ele são glorificados; propõe-se aos fiéis seus exemplos, que atraem todos ao Pai por meio de Cristo, e imploram-se os benefícios de Deus por seus méritos.”
(CIC, 1173)

Assim, venerar os santos não é idolatria, mas honrar a obra da graça divina neles, reconhecendo que Deus é admirável em seus amigos.

FUNDAMENTO BÍBLICO

A Sagrada Escritura está repleta de passagens que apontam para a santidade como vocação universal e para a glória dos bem-aventurados no Céu.

Em Levítico 19,2, o Senhor ordena:

“Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo.”

E em Mateus 5,8 e 12, Jesus proclama nas Bem-aventuranças:

“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.”
“Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus.”

No Apocalipse, São João tem uma visão da multidão dos santos:

“Vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, de pé diante do trono e do Cordeiro, vestidos de vestes brancas e com palmas nas mãos.”
(Ap 7,9)

Essa visão é o retrato perfeito do que a Igreja celebra em Todos os Santos: a multidão dos justos redimidos, que louvam eternamente o Cordeiro.

O CHAMADO UNIVERSAL À SANTIDADE

A Solenidade de Todos os Santos não é apenas uma recordação histórica, mas um convite espiritual.
Cada cristão é chamado à santidade, segundo o ensinamento de Nosso Senhor:

“Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito.” (Mt 5,48)

O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium (cap. V), reafirma esta verdade tradicional: todos os batizados, independentemente de seu estado de vida, são chamados à perfeição da caridade.

Os santos canonizados são espelhos da graça, exemplos concretos de que a santidade é possível — não apenas para religiosos, mas para pais e mães de família, trabalhadores, jovens e idosos que viveram a fé em seu cotidiano.

Como dizia Santa Teresinha do Menino Jesus:

“A santidade não consiste em fazer grandes coisas, mas em fazer as pequenas com grande amor.”

TESTEMUNHO DOS SANTOS E DOUTORES

Os santos sempre olharam para esta solenidade com amor e reverência.
Santo Agostinho afirmava:

“Se celebramos com piedade a festa de todos os santos, é porque desejamos participar de sua alegria e porque sentimos necessidade de sua intercessão.”

São Bernardo de Claraval exortava:

“Os santos não precisam de nossas homenagens, mas nós precisamos de seus exemplos e de suas orações.”

São João Maria Vianney dizia com simplicidade:

“Se soubéssemos o quanto é belo o Céu, faríamos tudo para sermos santos.”

Essas palavras mostram que a santidade não é um ideal distante, mas o destino natural de todo coração que ama a Deus.

CURIOSIDADES E COSTUMES

  1. Relação com o Dia de Finados:
    No dia seguinte, 2 de novembro, celebra-se a Comemoração dos Fiéis Defuntos. Assim, a Igreja une a alegria dos santos (1º de novembro) com a caridade pelas almas em purificação (2 de novembro). É um belo reflexo da comunhão entre o Céu e a terra.

  2. Solenidade de preceito:
    Em muitos países, o Dia de Todos os Santos é dia santo de guarda, ou seja, os fiéis têm o dever de participar da Santa Missa, tal como nos domingos.

  3. Liturgia:
    A cor litúrgica é o branco, símbolo da alegria, pureza e glória celeste.
    As leituras da Missa destacam as Bem-aventuranças e a visão do Apocalipse, centrando-se na felicidade eterna dos que seguiram a Cristo.

  4. Tradição inglesa e o “Halloween”:
    O termo “Halloween” vem de “All Hallows’ Eve” — “Véspera de Todos os Santos”. Originalmente, era uma noite de oração e vigília cristã.
    Com o tempo, o sentido religioso se perdeu e deu lugar a costumes pagãos. A Igreja convida os fiéis a resgatar o verdadeiro espírito cristão deste tempo, celebrando a santidade e não o medo ou a superstição.

O CÉU É O NOSSO DESTINO

A Solenidade de Todos os Santos é um anúncio da nossa vocação eterna.
Ao contemplar a glória daqueles que nos precederam, somos chamados a seguir seus passos, confiantes na graça de Deus que santifica os corações humildes e perseverantes.

Eles nos recordam que o Céu é real, que a santidade é possível e que a fidelidade no pouco conduz à glória eterna.

“Alegremo-nos, pois, no Senhor, celebrando o dia em que tantos santos já participam de Sua glória. E peçamos a graça de perseverar na fé, para que um dia sejamos contados entre eles.”

Todos os Santos de Deus, rogai por nós.